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sábado, 31 de agosto de 2013

A carroça da alegria

Carregada de garrafas vazias, papelões, bolas de festa, amarradas à sua volta, a carroça ia sendo conduzida por uma mulher que cantarolava alegremente numa manhã qualquer do bairro de Cruz das Armas.

Seu filho, já um rapazinho, pulava e brincava à frente da carroça, segurando um pedaço de cordão com várias bolas flutuando no ar, ia de um lado para outro, numa demonstração de pura euforia.

Eram mãe e filho que trabalhavam muito cedo, catando pelas ruas o que encontravam de utilidade nos lixos das casas. O lixo que, talvez, na noite anterior, tenha sido motivo de alegria de uma família que comemorava um aniversário ou outro evento.

Vez por outra, o garoto saía de seu folguedo e ajudava a mãe a arrumar os utensílios encontrados, de forma a sempre sobrar espaço para caber mais coisas. Depois, voltava a saracotear pela rua com suas bolas de festa.

Essa mulher, assim a chamo, não sei seu nome, onde mora, só sei que vive de catar o que outros não precisam mais, dos restos de suas alegrias, de suas mesas fartas, de algum objeto vazio de seu toucador, de sua intimidade...

Talvez a mulher da carroça não tenha marido, como tantas mães solteiras que vivem do seu trabalho, carregue também o peso de outra responsabilidade, ou seja, a própria provedora de sua casa.

Esse era o seu ofício, o seu ganha-pão, feito com humildade e alegria, porém honesto e dignificante, que não desonra e nem suja as mãos...

A mulher da carroça e seu filho iam pouco a pouco desaparecendo, ora parando aqui, ora acolá, até que dobraram uma esquina e se foram, dobrando outras esquinas, quem sabe, cantarolando alegremente uma música, enchendo de alegria as ruas afora, felizes da vida.

Washington Luiz do Nascimento
Estudante de Jornalismo
E-mail: washingtonluiznascimento@hotmail.com

sábado, 24 de agosto de 2013

Meu inesquecível Mestre

Cidade de Santa Rita. Rua Peregrino de Carvalho, anos de minha adolescência. Não preciso exatamente em que ano, mas sei que fora nessa época que ele me apresentou as primeiras noções da língua inglesa, da charada e das palavras cruzadas, além do jogo de damas.


 Foto: Washington Luiz do Nascimento

Recordo-me, ainda, daquela maneira firme no falar com professoral paciência e, com os movimentos dos lábios e braços em gestos explicativos, pronunciando as palavras em inglês: búk, désk, pêncil, mórning, mais outras tantas, ensinou-me as primeiras noções da língua de Shakespeare.

Absorvia suas palavras com interesse de quem queria aprender, repetindo a pronúncia dos termos exatamente como por ele era ensinado. O velho mestre entregava-me, depois, uma relação com novas palavras para no dia seguinte sabatinar-me.

Ensinar sempre foi seu propósito e missão, seu dever e prazer maior. Isso porque percebia nos seus olhos vivos e inteligentes, sua alegria ao ver seu pupilo responder o significado das novas palavras e com a pronúncia correta.

Fui adotado como seu aluno, lembro-me. Talvez porque tínhamos afinidades em comum: ambos gostávamos de ler, recitar poesias, conversar sobre os mais diversos assuntos. Já discutíamos à época a filosofia dos grandes filósofos gregos, a exemplo de Platão, Sócrates, Aristóteles. 

Incentivou-me o velho professor a aprender palavras cruzadas que era um dos seus passatempos prediletos, pois julgava que os conhecimentos de novos sinônimos monossilábicos e dissilábicos iriam facilitar-me a resolver os problemas de charada.

Não sei até hoje em que série ele parou os estudos escolares. Só sei que seus conhecimentos adquiridos de maneira autodidata, formaram o arcabouço cultural que o tornaram um poeta, um escritor e um intelectual digno de admiração.

Por fim, agradecido, carrego dentro do peito as melhores recordações do professor e amigo que, do alto dos seus atuais 91 anos, ainda continua lúcido, criativo e motivo de orgulho de sua esposa, filhos e parentes, além dos atuais e velhos amigos que têm a graça de tê-lo como fonte de inspiração e exemplo de vida. Assim como tenho...

Em 20 de junho de 2013

Washington Luiz do Nascimento 
Estudante de Jornalismo
E-mail: washingtonluiznascimento@hotmail.com

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O telefonema

Soa o telefone, geralmente no mesmo horário, alguém da casa atende e passa o aparelho para mim. Quando soa, já penso: é ela. Minha querida mana que faz a sua voz chegar de tão longe para ouvi-la como se estivesse tão perto.

Com seu sotaque meigo e fraternal, entabula uma conversa corriqueira, que logo passamos a discorrer por longos e longos minutos. Só sabemos que iniciamos uma conversa, mas não precisamos quando terminará. 

O diálogo entre pessoas que se entendem empaticamente flui de maneira suave, quase como uma sinfonia que agrada aos ouvidos. Nem sentimos o tempo passar tão envolvidos que ficamos. 


Existe uma interação muito forte entre nossos pensamentos. Algo de cúmplice tece os seus fios na formação de um mesmo tecido. Isso porque falamos normalmente dos assuntos que nos são afins. Afinal, seus problemas são também meus. Suas alegrias, também.

Realmente, existem pessoas com as quais sentimos necessidade de estar sempre juntas, de ouvir sua voz e olhar nos seus olhos, como se assim se completassem e se pertencessem por força do destino. 

Por esta razão, talvez seja explicável o telefonema quase sempre no mesmo horário, como algo que fosse de extremo imperativo em acontecer.

Quando resolvemos nos despedir pelo avançado da hora, sempre existe um tempinho a mais de bate-papo. Algo que deixou de ser conversado surge de repente e lá se vai mais tempo de conversa. Imagino, assim penso, que sorrimos intimamente por esses incidentes corriqueiros e esperados. 

Hoje, data do seu aniversário. Eis o meu presente: um telefonema e o envio deste texto quase no mesmo horário, como de hábito.


Washington Luiz do Nascimento
Estudante de Jornalismo
e-mail: washingtonluiznascimento@hotmail.com