sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O telefonema

Soa o telefone, geralmente no mesmo horário, alguém da casa atende e passa o aparelho para mim. Quando soa, já penso: é ela. Minha querida mana que faz a sua voz chegar de tão longe para ouvi-la como se estivesse tão perto.

Com seu sotaque meigo e fraternal, entabula uma conversa corriqueira, que logo passamos a discorrer por longos e longos minutos. Só sabemos que iniciamos uma conversa, mas não precisamos quando terminará. 

O diálogo entre pessoas que se entendem empaticamente flui de maneira suave, quase como uma sinfonia que agrada aos ouvidos. Nem sentimos o tempo passar tão envolvidos que ficamos. 


Existe uma interação muito forte entre nossos pensamentos. Algo de cúmplice tece os seus fios na formação de um mesmo tecido. Isso porque falamos normalmente dos assuntos que nos são afins. Afinal, seus problemas são também meus. Suas alegrias, também.

Realmente, existem pessoas com as quais sentimos necessidade de estar sempre juntas, de ouvir sua voz e olhar nos seus olhos, como se assim se completassem e se pertencessem por força do destino. 

Por esta razão, talvez seja explicável o telefonema quase sempre no mesmo horário, como algo que fosse de extremo imperativo em acontecer.

Quando resolvemos nos despedir pelo avançado da hora, sempre existe um tempinho a mais de bate-papo. Algo que deixou de ser conversado surge de repente e lá se vai mais tempo de conversa. Imagino, assim penso, que sorrimos intimamente por esses incidentes corriqueiros e esperados. 

Hoje, data do seu aniversário. Eis o meu presente: um telefonema e o envio deste texto quase no mesmo horário, como de hábito.


Washington Luiz do Nascimento
Estudante de Jornalismo
e-mail: washingtonluiznascimento@hotmail.com

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O homem da bengala branca

Quando caminhava pela Praça da Independência, após deixar minhas filhas no colégio, percebi um homem que vinha, bem devagarinho, em minha direção com o corpo ereto e um olhar distante. Tateava com sua bengala o chão de um lado para o outro, como se estivesse esquadrinhando a calçada a cada passo, cuidadosamente, dado.

Em princípio, não dei importância àqueles detalhes, supondo que o transeunte sabia para onde estava indo. Quando completei a volta no calçadão da praça, cruzei novamente com o homem da bengala branca. Não contive a curiosidade e, desculpando-me, perguntei-lhe se estava perdido. Ele respondeu que não. Apenas havia saltado na parada do ônibus errada, pois de costume, saltava no ponto perto da funerária São João Batista, próximo ao local de seu trabalho.

Num gesto de solidariedade, resolvi ajudá-lo no percurso até o seu destino. Segurei-lhe o braço esquerdo, pois o direito carregava o seu instrumento de orientação. Fomos os dois lado a lado e bem devagar. 

Durante o trajeto, conversamos sobre a violência e o trânsito caótico que tomaram conta da outrora pacata (e provinciana) cidade de João Pessoa. Ele conversava com ar desenvolto e com um sorriso amável e tranquilo, demonstrando ser uma pessoa culta pela forma como expunha seus argumentos em relação aos assuntos que discutíamos.

Quando chegamos próximo ao local de seu trabalho, o dono de um quiosque fez-lhe um cumprimento com gesto de quem o conhecia há muito, chamando-o de doutor. O doutor retribuiu o cumprimento educada e faceiramente, ostentando um largo sorriso de felicidade.

Finalmente deixei-o na escadaria do Hospital Municipal Santa Isabel. O homem da bengala branca apertou-me a mão num gesto de agradecimento e só então me disse que trabalhava como psicólogo no hospital.

Washington Luiz do Nascimento
Estudante de Jornalismo
e-mail: washingtonluiznascimento@hotmail.com















quarta-feira, 1 de maio de 2013

Por que resolvi voltar aos bancos escolares

Em 2011, prestei exame no ENEM unicamente com conhecimentos adquiridos de práticas de leitura e experiências de vida. Pela nota da redação, 760.0 pontos, consegui matrícula no curso de jornalismo da Faculdade Maurício de Nassau, sem precisar fazer nenhum teste, de acordo com normas da instituição.

Essa decisão de estudar não foi, inicialmente, bem aceita pelos meus familiares, pois entendiam que eu já estava bastante velho para enfrentar tal desafio. Resolvi convencê-los de que a idade não é obstáculo nem limite para impedir que alcancemos nossos propósitos de vida e que aprender é uma necessidade básica inerente ao ser humano, pois enfrentar desafios aumenta nossa autoestima e capacidade de interagir conosco e com os outros.

O hábito da leitura, por si só, não foi suficiente para preencher a ânsia do saber e da aprendizagem que me angustiava a alma. Percebi que somente através de um ensino superior poderia atingir meus objetivos de estudo há tanto tempo adormecido.

A vontade de poder ajudar melhor intelectualmente e, de ser exemplo às minhas filhas, também foi de fundamental importância na decisão de voltar ao mundo acadêmico.

Finalmente, sei que não sou o primeiro nem serei o último a servir de exemplo àqueles que largaram os livros pelos caminhos do desânimo e da falta de perspectiva no futuro, mas espero, pelo menos, despertar-lhes algum resquício na vontade de voltar a aprender.

Eis a razão pela qual resolvi ser um estudante de mais de 50 anos de idade, numa turma com jovens de mentes abertas, criativas e cheias de esperanças no futuro.

Washington Luiz do Nascimento
Estudante de Jornalismo